Uma caixa de papelão que normalmente acabaria no lixo pode ter uma segunda utilidade na machamba: ajudar o solo a conservar água durante períodos de muito calor. A técnica consiste em abrir caixas de cartão ou papelão, retirar fitas e outros materiais e colocar as folhas diretamente sobre a superfície da terra, deixando espaço suficiente junto às plantas. O papelão funciona como uma espécie de cobertura do solo, reduzindo a exposição direta ao sol e dificultando que a humidade desapareça rapidamente.

Para agricultores moçambicanos que produzem alface, tomate, couve, pimento, pepino e outras hortaliças durante períodos quentes, a ideia merece atenção. Temperaturas elevadas podem secar rapidamente a camada superficial do solo, principalmente em terrenos arenosos. Como consequência, o produtor precisa regar com maior frequência e pode gastar mais tempo, combustível ou dinheiro para conseguir água.

A técnica não substitui uma boa irrigação e também não significa que seja possível deixar de regar. O seu principal objetivo é aproveitar melhor a água que já chega ao solo.

O papelão não vai por cima da planta, mas sobre a terra

Quando se fala em usar uma “caixa de papel”, pode parecer que a proposta é colocar a caixa inteira sobre a cultura para criar sombra. Não é isso.

Primeiro, a caixa é desmontada e transformada numa folha relativamente plana. Depois, o papelão é colocado sobre o solo ao redor das plantas. Podem ser feitos cortes ou aberturas para permitir que tomateiros, couves, milho, pepinos ou outras culturas continuem a crescer normalmente.

A ideia tornou-se assunto depois de uma experiência realizada durante um período de calor intenso. O papelão foi utilizado como cobertura do solo numa horta onde cresciam culturas como milho, pepino e alcachofra. Depois da colocação do material, foi observada melhor conservação da humidade e menor necessidade de regar frequentemente.

O resultado faz sentido do ponto de vista agronómico porque o princípio já é bastante conhecido: cobrir o solo pode reduzir as perdas de água por evaporação.

É o mesmo raciocínio existente quando o agricultor usa palha, capim seco, restos de culturas ou outros materiais orgânicos para cobrir a terra.

Por que a terra descoberta perde água mais depressa?

Imagine dois canteiros de hortaliças durante uma tarde muito quente. Num deles, toda a superfície da terra está descoberta. No outro, existe uma camada de material protegendo o solo.

No primeiro canteiro, a radiação solar aquece diretamente a superfície. À medida que a temperatura do solo aumenta, parte da água existente nas camadas superficiais evapora para a atmosfera.

Isso pode acontecer rapidamente em dias quentes, secos e com vento.

O problema torna-se ainda mais evidente quando o solo tem pouca matéria orgânica ou grande quantidade de areia. A água pode infiltrar rapidamente e, ao mesmo tempo, a superfície perde humidade com facilidade.

Ao colocar papelão sobre a terra, cria-se uma barreira física entre o solo e o ambiente. A superfície recebe menos radiação solar direta e fica parcialmente protegida do vento.

Dessa forma, a água fornecida durante a rega pode permanecer disponível durante mais tempo na zona onde estão as raízes.

Para uma pequena horta onde o agricultor transporta água manualmente, essa diferença pode representar menos viagens com regadores ou baldes.

O papelão também pode reduzir algumas infestantes

A água não é o único recurso disputado dentro de uma machamba.

As infestantes também utilizam água, nutrientes e espaço que poderiam ser aproveitados pelas culturas. Durante épocas favoráveis, algumas ervas crescem rapidamente entre as linhas de tomate, couve ou outras hortaliças.

Quando uma camada de papelão cobre o solo, a passagem de luz fica limitada. Muitas sementes de infestantes presentes na superfície encontram mais dificuldade para germinar e crescer.

Isso não elimina todas as ervas.

Infestantes muito fortes ou plantas que já estavam desenvolvidas antes da instalação do papelão podem atravessar aberturas ou crescer pelas laterais. Por isso, é aconselhável retirar as infestantes maiores antes de colocar a cobertura.

Ainda assim, reduzir o surgimento de novas ervas pode significar menos competição pela água justamente quando este recurso está escasso.

Em Moçambique, conservar água pode fazer grande diferença

A técnica torna-se particularmente interessante quando pensamos na produção de hortaliças em regiões onde a rega exige trabalho diário.

Um estudo realizado com produtores de alface no Vale do Infulene, em Maputo, descreveu agricultores transportando aproximadamente 20 litros de água por viagem para regar as culturas. Durante o período seco analisado, a rega chegava a ser realizada duas vezes por dia.

Isso mostra como conservar a água que já foi colocada no canteiro pode ter importância prática.

Também existem evidências de outras regiões da África Subsaariana de que sistemas combinando irrigação eficiente e cobertura do solo podem reduzir significativamente o consumo de água. Experiências realizadas na Tanzânia com pepino mostraram que técnicas de conservação de humidade, quando combinadas com métodos adequados de irrigação, aumentaram o período durante o qual o solo permaneceu húmido.

Isso não significa que colocar papelão sozinho produzirá exatamente os mesmos resultados. O tipo de solo, temperatura, cultura, quantidade de água aplicada e espessura da cobertura alteram completamente o resultado.

Nem toda caixa encontrada no lixo deve ir para a machamba

Aqui é necessário algum cuidado.

O produtor deve preferir papelão simples, castanho e relativamente limpo. Antes da utilização, é importante retirar fita-cola, plástico, etiquetas plastificadas, agrafos e outros materiais que não deveriam permanecer no solo.

Caixas que tiveram contacto com óleo, combustível, pesticidas, produtos químicos ou substâncias desconhecidas não são boas candidatas para utilização numa horta.

Também é prudente evitar materiais excessivamente plastificados ou revestidos.

Depois de colocado no canteiro, o papelão pode ser molhado. Isso ajuda o material a adaptar-se à superfície do solo e evita que o vento o levante.

Uma camada de palha ou restos vegetais por cima pode ajudar a mantê-lo no lugar e melhorar ainda mais a proteção da superfície.

Existe um erro que pode prejudicar as plantas

Cobrir o solo não significa encostar uma camada grossa de papelão diretamente ao caule da planta.

É melhor deixar algum espaço ao redor do caule.

Quando materiais permanecem constantemente húmidos e encostados à planta, podem criar condições favoráveis para decomposição excessiva e determinados problemas sanitários.

Além disso, cada cultura deve continuar a receber água suficiente.

Se uma alface precisa de água e o solo está seco na zona das raízes, não adianta existir papelão sobre a superfície. A cobertura ajuda principalmente a reduzir perdas; ela não cria água.

Por isso, o agricultor deve verificar a humidade abaixo da cobertura antes de decidir quando regar novamente.

O melhor teste pode começar num pequeno canteiro

Antes de cobrir uma grande área da machamba, uma experiência simples pode fornecer uma resposta mais útil do que qualquer promessa encontrada na internet.

O agricultor pode escolher dois pequenos canteiros semelhantes.

Num deles, mantém o sistema normal. No outro, coloca papelão limpo sobre o solo. Depois pode observar durante alguns dias quanto tempo a terra permanece húmida, com que frequência precisa regar e como aparecem as infestantes.

Essa comparação permite perceber se a técnica funciona naquele solo e naquela cultura.

Em algumas situações, palha, capim seco ou restos da própria cultura podem ser mais fáceis de encontrar do que caixas de papelão. O princípio continua praticamente o mesmo: evitar deixar toda a superfície do solo permanentemente exposta ao sol.

Com ondas de calor e períodos secos capazes de colocar pressão crescente sobre a produção de hortaliças, soluções simples para conservar humidade merecem ser experimentadas com cuidado.

Uma caixa de papelão não resolve o problema da falta de água. Porém, quando transformada em cobertura do solo, pode ajudar a fazer algo extremamente importante na agricultura: manter por mais tempo, junto às raízes, parte da água que o agricultor já trabalhou para colocar na machamba.