O agricultor moçambicano que está a preparar a próxima campanha agrícola tem uma razão adicional para não deixar todas as decisões para o momento das primeiras chuvas. O El Niño voltou a ocupar o centro das atenções em 2026, e os alertas internacionais apontam para riscos de seca agrícola em partes da África Austral. Isso não significa que todas as machambas de Moçambique vão enfrentar seca, nem que seja possível prever exatamente quanto choverá em cada distrito. Significa, porém, que preparar sementes, água, solo e estratégia de plantio com antecedência pode fazer uma diferença importante se as chuvas se tornarem irregulares.
A preocupação não é apenas teórica. Moçambique ainda conhece bem os efeitos do El Niño de 2023–2024, quando zonas do centro e sul enfrentaram períodos secos e precipitação abaixo do normal. A FAO realizou intervenções posteriores para ajudar milhares de famílias agrícolas afetadas a recuperar a produção. A experiência deixou uma mensagem importante: quando a agricultura depende principalmente da chuva, esperar a seca chegar para começar a reagir costuma ser tarde demais.
O risco não é apenas chover pouco, mas chover na altura errada
Quando se fala de El Niño, muitos agricultores pensam imediatamente numa campanha sem chuva. Na prática, o problema pode ser mais complicado. Uma região pode receber alguma precipitação durante a campanha e, mesmo assim, sofrer perdas importantes se a distribuição dessa água for irregular.
Imagine, por exemplo, que um produtor prepara dois hectares de milho. As primeiras chuvas aparecem em novembro e parecem suficientes para iniciar a sementeira. O agricultor planta praticamente toda a semente disponível. Depois disso, passam duas ou três semanas com temperaturas elevadas e quase nenhuma chuva. Parte das sementes germina, mas as plantas jovens começam a sofrer por falta de humidade.
Se não existir semente reservada, o agricultor pode não conseguir fazer a ressementeira quando as chuvas regressarem.
É precisamente por isso que a próxima campanha deve ser preparada com maior prudência. A decisão de semear não deveria depender apenas da primeira chuva forte. É importante acompanhar as previsões meteorológicas e observar se existe humidade suficiente no solo para permitir o estabelecimento inicial da cultura.
O risco também varia dentro de Moçambique. O sul possui extensas zonas semiáridas onde a irregularidade das chuvas já representa um desafio mesmo em anos considerados normais. No centro, algumas áreas também podem enfrentar períodos secos capazes de comprometer culturas dependentes exclusivamente da precipitação. Por isso, a informação meteorológica nacional e local deve ganhar mais importância nas decisões do produtor.
Guardar parte da semente pode salvar a campanha

Uma das decisões mais simples pode ser também uma das mais importantes: não utilizar necessariamente toda a semente disponível numa única sementeira.
O agricultor que possui apenas quantidade suficiente para plantar uma vez fica muito exposto quando ocorre uma falsa partida da época chuvosa. Se a cultura germinar e morrer posteriormente, comprar nova semente em plena campanha pode ser mais caro ou até difícil, principalmente em zonas afastadas dos principais mercados de insumos.
Ter uma pequena reserva permite reagir.
Outra estratégia é diversificar as culturas e considerar variedades de ciclo mais curto ou com maior tolerância ao défice hídrico, quando forem adequadas às condições agroecológicas da região. A FAO tem utilizado precisamente sementes tolerantes à seca e de ciclo curto entre as medidas de antecipação adotadas em Moçambique.
Isso não significa abandonar o milho, uma das culturas alimentares mais importantes do país. Significa evitar colocar toda a segurança alimentar da família numa única cultura, variedade ou data de plantio.
Culturas como sorgo, mapira, algumas variedades de feijão e outras opções adaptadas às condições locais podem ajudar a distribuir o risco. A escolha, entretanto, precisa considerar o tipo de solo, a disponibilidade de sementes, o mercado e os hábitos alimentares da família.
A água deve ser preparada antes de fazer falta
Esperar que um poço, charco ou pequena fonte comece a secar para pensar em água é uma estratégia perigosa numa campanha potencialmente irregular.
Antes do início das sementeiras, o produtor deve identificar as fontes de água disponíveis e avaliar quais delas permanecem utilizáveis durante períodos prolongados sem precipitação. Quem possui possibilidade de armazenar água da chuva pode preparar reservatórios, pequenos sistemas de captação ou estruturas apropriadas às condições da propriedade.
A FAO tem promovido em Moçambique sistemas de captação de água, pequena irrigação e tecnologias de poupança de água como parte das medidas para aumentar a resistência das famílias agrícolas aos choques climáticos.
Mas irrigação não significa necessariamente instalar um sistema caro.
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Quantos Quilos de Ração um Frango de Corte Come em 45 DiasEm pequenas áreas destinadas à horticultura, por exemplo, melhorar o armazenamento e aplicar água diretamente próximo das plantas pode permitir que uma quantidade limitada seja utilizada de maneira mais eficiente. Cobrir o solo com restos vegetais também ajuda a reduzir a perda de humidade por evaporação.
Para produtores com animais, a preparação precisa incluir água e alimentação. Uma seca prolongada não atinge somente milho, feijão ou hortaliças. Também reduz pastagens e pode aumentar a distância percorrida pelo gado para encontrar água e alimento.
Um solo descoberto perde água mais rapidamente
Preparar-se para uma possível campanha seca também significa olhar para o chão da machamba.
Solos deixados completamente descobertos ficam diretamente expostos ao sol e ao vento. A temperatura da superfície aumenta e a humidade pode desaparecer rapidamente. Quando finalmente ocorre uma chuva intensa, parte da água pode escorrer em vez de infiltrar adequadamente no terreno.
A manutenção de resíduos vegetais sobre o solo, quando possível e tecnicamente adequada, pode reduzir evaporação, melhorar infiltração e diminuir erosão. A agricultura de conservação e outras práticas de agricultura climaticamente inteligente fazem parte das estratégias promovidas pela FAO para aumentar a capacidade dos agricultores moçambicanos enfrentarem eventos climáticos extremos.
A matéria orgânica também merece atenção. Estrume bem curtido, composto e resíduos orgânicos adequadamente manejados podem contribuir para melhorar as características do solo ao longo do tempo. Um terreno com melhor estrutura consegue geralmente aproveitar melhor a água disponível do que um solo degradado e compactado.
Essas práticas não eliminam uma seca severa. O objetivo é aumentar a capacidade da machamba de aproveitar cada chuva que realmente cair.
Plantar tudo no mesmo dia pode aumentar o risco

Outra decisão que merece ser repensada é concentrar toda a sementeira numa única data.
Quando existem condições e mão de obra suficientes, distribuir parte do plantio por momentos diferentes pode funcionar como uma forma de gestão de risco. Uma parcela pode enfrentar um período seco numa fase crítica enquanto outra, plantada alguns dias depois, encontra condições melhores.
Naturalmente, essa estratégia precisa acompanhar o calendário agrícola da região. Plantar excessivamente tarde também reduz o tempo disponível para a cultura completar o ciclo.
O objetivo não é atrasar a campanha deliberadamente, mas evitar decisões automáticas baseadas apenas numa chuva isolada.
A previsão meteorológica deve ser consultada com frequência durante a campanha. O agricultor moderno precisa tratar informação climática como trata sementes, fertilizantes ou equipamentos: como um insumo da produção.
A experiência recente de Moçambique mostra por que preparar cedo importa
As consequências do último El Niño foram suficientemente sérias para justificar cautela. A FAO informou que a seca associada ao fenómeno afetou agricultores em várias zonas do país e levou à distribuição de sementes, ferramentas e outros apoios. Somente numa das respostas implementadas, mais de 31 mil famílias agrícolas receberam assistência para recuperar a produção.
Em zonas como Gaza, Sofala, Manica e Tete, a vulnerabilidade à seca já faz parte da realidade de muitas comunidades.
Por isso, a preparação para a próxima campanha não deve começar quando as plantas já estiverem a murchar. Deve começar agora, com decisões relativamente simples: selecionar sementes adequadas, manter uma reserva para eventual ressementeira, proteger o solo, identificar fontes de água, diversificar parte da produção e acompanhar as previsões meteorológicas.
El Niño não significa automaticamente que a próxima campanha agrícola será perdida. O comportamento das chuvas pode variar bastante entre regiões e até entre distritos próximos. Entretanto, ignorar os sinais disponíveis aumenta desnecessariamente o risco.
Para o pequeno agricultor moçambicano, que muitas vezes investe uma parte significativa do rendimento familiar numa única campanha, prevenção pode custar muito menos do que recomeçar depois de perder sementes, fertilizantes e semanas de trabalho. Num cenário climático cada vez mais irregular, produzir bem já não depende apenas de saber plantar. Depende também de saber preparar-se antes de a chuva — ou a falta dela decidir o rumo da machamba.