Quem cria animais numa zona com vegetação natural provavelmente já reparou numa cena curiosa: enquanto bovinos passam por determinados arbustos sem lhes tocar, uma cabra pode aproximar-se, levantar-se sobre as patas traseiras e começar a arrancar as folhas. Algumas comem vegetação amarga, folhas de árvores e arbustos que parecem pouco apetitosos para outros animais.

Não acontece porque a cabra seja simplesmente capaz de comer qualquer coisa. Na realidade, existe uma combinação de comportamento, experiência e adaptações do organismo que ajuda a explicar essa capacidade.

As cabras são animais extremamente selectivos. Em vez de depender apenas do capim disponível no chão, conseguem explorar folhas, rebentos e outras partes de plantas lenhosas. Mais interessante ainda é que o organismo possui mecanismos que ajudam a enfrentar alguns compostos químicos usados pelas próprias plantas como defesa.

Um deles começa antes mesmo de o alimento chegar ao estômago: na saliva da cabra.

Algumas plantas tentam impedir que os animais as comam

Uma planta não consegue fugir quando aparece um herbívoro. Ao longo da evolução, muitas espécies desenvolveram outras formas de defesa.

Entre elas estão espinhos e diferentes compostos químicos.

Os taninos são um bom exemplo. Essas substâncias estão presentes em diferentes plantas e podem reduzir a palatabilidade e interferir na utilização de nutrientes quando consumidas em determinadas concentrações.

Isso ajuda a explicar por que alguns animais evitam certas folhas mesmo quando existe bastante vegetação disponível.

A cabra, entretanto, é particularmente interessante porque consegue incluir na dieta uma variedade considerável de plantas que contêm esses compostos.

Uma revisão sobre comportamento alimentar de cabras publicada em 2024 encontrou um exemplo impressionante numa floresta tropical: os animais estudados consumiram mais de 90 espécies de plantas, embora apenas 7 a 15 espécies constituíssem mais de 90% do consumo diário.

Ou seja, a cabra não estava simplesmente a comer tudo o que encontrava. Estava a escolher.

A saliva da cabra pode ser parte do segredo

Aqui aparece uma das explicações mais interessantes.

Pesquisadores que estudaram cabras indígenas da África do Sul descobriram que a saliva desses animais consegue ligar-se e precipitar taninos presentes em diferentes plantas.

Os investigadores testaram tanto ácido tânico como extractos de sete espécies de árvores sul-africanas. Os resultados mostraram capacidade significativa da saliva das cabras para se ligar aos taninos.

Isso pode ajudar o animal a lidar com vegetação rica nesses compostos.

É importante não transformar essa descoberta numa ideia exagerada de que a saliva torna qualquer planta segura. Não torna.

Os próprios investigadores consideram que essa capacidade trabalha em conjunto com outros mecanismos fisiológicos e comportamentais. O que ela ajuda a explicar é por que as cabras conseguem aproveitar determinados alimentos de baixa qualidade ou quimicamente defendidos melhor do que seria esperado.

Essa característica pode ser particularmente vantajosa em ambientes secos, onde o capim de boa qualidade não permanece disponível durante todo o ano.

O comportamento da cabra também faz diferença

O comportamento da cabra também faz diferença

Existe outra característica fácil de observar numa criação extensiva: a cabra gosta de explorar.

Ela pode comer algumas folhas de uma planta, caminhar, experimentar outra espécie e depois voltar para um alimento diferente.

Esse comportamento permite formar uma dieta diversificada em vez de depender exclusivamente de uma única fonte.

Pesquisas sobre cabras em vegetação heterogénea indicam justamente que esses animais ajustam as escolhas conforme a vegetação disponível, estação do ano e qualidade dos alimentos. Elas procuram equilibrar nutrientes e compostos secundários das plantas.

Isso significa que uma cabra solta numa área com diferentes árvores, arbustos e capins não escolhe necessariamente a planta que existe em maior quantidade.

Ela procura determinadas partes.

Folhas jovens e rebentos podem apresentar características nutricionais muito diferentes de ramos velhos e fibrosos da mesma planta.

Por isso, observar uma cabra comer folhas de um arbusto não significa que ela esteja disposta a consumir toda aquela planta.

Cabras experientes podem aprender a escolher melhor

Nem toda essa capacidade depende apenas do organismo.

A experiência também conta.

Um estudo analisado numa revisão de 2024 comparou cabras jovens que já tinham experiência de procurar alimento na vegetação com animais sem essa experiência. As cabras experientes mostraram maior capacidade de seleccionar forragens de melhor qualidade nutricional e digestibilidade, evitando materiais com níveis elevados de determinados compostos secundários.

Isso tem uma consequência interessante para quem cria cabritos.

Um animal jovem colocado pela primeira vez numa zona com muitas espécies vegetais não possui necessariamente exactamente o mesmo comportamento alimentar de uma cabra adulta que passou anos naquele ambiente.

Parte da eficiência vem da aprendizagem.

A cabra experimenta alimentos, recebe sinais do próprio organismo depois de os consumir e acumula experiência sobre aquilo que pode aproveitar.

Essa combinação entre adaptação fisiológica e aprendizagem ajuda a transformar as cabras em excelentes exploradoras da vegetação disponível.

É por isso que vemos cabras procurando folhas nas árvores

As cabras são frequentemente classificadas como animais com forte comportamento de ramoneio. Isso significa que aproveitam folhas, rebentos e partes de arbustos e árvores, além de poderem consumir plantas herbáceas e capins.

Essa característica diferencia o comportamento delas daquele de animais mais especializados em pastar.

Em áreas onde o capim perde qualidade durante a estação seca, arbustos e árvores podem continuar oferecendo partes verdes.

É justamente nesse tipo de ambiente que a capacidade da cabra para diversificar a dieta pode representar uma vantagem.

Um estudo sobre saliva e taninos destaca que cabras conseguem sobreviver e prosperar em regiões áridas onde outros animais encontram maiores dificuldades, em parte devido à capacidade de explorar vegetação quimicamente defendida e de menor qualidade.

Para pequenos criadores em regiões africanas com períodos secos prolongados, entender esse comportamento pode ajudar a perceber por que a cabra é tão adaptável.

Mas existe um erro perigoso: cabra não pode comer qualquer planta

Mas existe um erro perigoso cabra não pode comer qualquer planta

A capacidade de aproveitar vegetação que outros animais evitam criou uma ideia popular perigosa: “cabra come tudo.”

Não é verdade.

Existem plantas capazes de provocar intoxicação em caprinos. Além disso, a quantidade ingerida, parte da planta, fase de crescimento e concentração de determinados compostos podem alterar o risco.

Até os taninos ilustram bem essa diferença.

Em quantidades adequadas, determinados taninos podem apresentar efeitos interessantes na alimentação de pequenos ruminantes. Entretanto, concentrações elevadas podem reduzir a digestibilidade e a utilização de proteína e afectar o consumo. Uma meta-análise publicada em 2025, baseada em 97 estudos, confirmou que os efeitos dos taninos dependem da forma como entram na dieta e podem alterar digestibilidade, metabolismo do azoto e fermentação ruminal.

Portanto, ver uma cabra experimentar uma planta desconhecida não prova que aquela espécie seja segura.

Também não é recomendável cortar grandes quantidades de uma planta desconhecida e fornecê-las no curral simplesmente porque algumas cabras foram vistas a comer algumas folhas no campo.

Existe uma diferença enorme entre o animal seleccionar pequenas quantidades dentro de dezenas de opções e ser obrigado a consumir grande quantidade de uma única planta.

A cabra não come tudo: ela é uma especialista em escolher

Talvez essa seja a parte mais surpreendente.

A fama da cabra como animal que “come qualquer coisa” esconde um comportamento alimentar bastante sofisticado.

Ela consegue explorar diferentes alturas da vegetação, seleccionar determinadas folhas e rebentos, alternar entre espécies e aprender com a experiência. Além disso, possui mecanismos fisiológicos que ajudam a lidar com alguns dos compostos de defesa encontrados nas plantas.

Pesquisadores já demonstraram, inclusive, que a saliva de cabras consegue ligar-se aos taninos presentes em espécies vegetais africanas.

Isso não transforma a cabra num animal imune a venenos.

Transforma-a num herbívoro particularmente adaptável.

É por isso que, numa machamba ou área de pastagem, pode acontecer algo aparentemente estranho: o bovino passa pelo arbusto, outro animal procura capim e a cabra estica o pescoço para alcançar justamente aquelas folhas.

Por trás daquela simples dentada existe muito mais do que fome. Existe selecção alimentar, aprendizagem e uma adaptação desenvolvida para aproveitar uma vegetação que muitos outros animais preferem deixar para trás.