O caju em Moçambique é muito mais do que uma cultura tradicional encontrada nas machambas das zonas rurais. A castanha de caju voltou a assumir uma posição de destaque na agricultura nacional, depois de décadas marcadas por períodos de forte produção e outros de declínio. Actualmente, milhares de famílias dependem directa ou indirectamente do cajueiro para obter rendimento, enquanto comerciantes, fábricas de processamento e exportadores movimentam uma cadeia que tem importância crescente para a economia rural.
Os números mais recentes mostram claramente essa recuperação. Na campanha de comercialização 2024/25, Moçambique alcançou cerca de 195.400 toneladas de castanha de caju comercializada, ficando muito próximo das aproximadamente 200 mil toneladas registadas no início da década de 1970, período em que o país chegou a ocupar uma posição de liderança mundial na produção de caju.
Este crescimento ajuda a explicar por que razão falar de caju em Moçambique significa falar simultaneamente de agricultura familiar, rendimento rural, indústria, exportação e criação de emprego.
Qual é a importância do caju em Moçambique?
O cajueiro adapta-se relativamente bem a várias condições encontradas no território moçambicano e está presente em diferentes províncias. Para muitas famílias, sobretudo nas zonas rurais, ele funciona como uma cultura de rendimento que pode complementar culturas destinadas principalmente à alimentação.
A importância económica não termina quando a castanha sai da machamba. Existe uma cadeia que envolve produção de mudas, manutenção dos pomares, tratamentos fitossanitários, colheita, compra, transporte, armazenamento, processamento e comercialização.
Dados divulgados pelo Ministério da Agricultura em 2025 indicavam que a cadeia das amêndoas abrangia cerca de 1,047 milhão de famílias, 69 empresas e 7.287 trabalhadores no país. Embora esses números incluam a cadeia das amêndoas de forma mais ampla, demonstram a dimensão económica e social de um sector em que o caju ocupa uma posição central.
Para o pequeno produtor, existe ainda uma característica importante: um cajueiro bem estabelecido é uma cultura permanente. Diferentemente de culturas anuais que precisam de ser novamente instaladas em cada campanha, o pomar pode continuar a produzir durante muitos anos quando recebe os cuidados adequados.
Onde é mais produzido o caju em Moçambique?
A produção está distribuída por grande parte do território nacional, mas Nampula ocupa uma posição especialmente importante.
O próprio Instituto de Amêndoas de Moçambique considera Nampula o berço da cultura do caju no país e identifica a província como a de maior produção. Em 2026, durante a apresentação do Programa de Desenvolvimento da Cadeia de Valor do Caju 2025-2034 aos extensionistas, o IAM voltou a destacar esse papel da província.
Além de Nampula, Cabo Delgado, Zambézia, Inhambane, Gaza, Sofala, Manica, Niassa, Tete e Maputo aparecem nos planos nacionais relacionados com a expansão ou produção do cajueiro.
Essa distribuição é importante porque mostra que o caju não deve ser visto apenas como uma cultura do Norte. Existem zonas produtoras importantes no Centro e Sul do país, embora a concentração e o peso comercial sejam diferentes.
O Programa Quinquenal do Governo 2025-2029, por exemplo, prevê intervenções para ampliar o parque nacional de cajueiros e aumentar o volume produzido em diferentes províncias.
Por que Nampula se destaca na produção de caju?
Nampula reúne uma combinação histórica de experiência dos produtores, grande presença de cajueiros, condições adequadas em várias zonas e uma cadeia comercial desenvolvida em torno da castanha.
Não é apenas uma questão de quantidade de árvores. Quando uma cultura está estabelecida durante décadas numa região, surgem compradores, conhecimentos locais, trabalhadores especializados, serviços e canais de comercialização que ajudam a fortalecer toda a cadeia.
Por isso, Nampula continua estratégica para qualquer discussão sobre o futuro do caju moçambicano.
O novo Programa de Desenvolvimento da Cadeia de Valor do Caju 2025-2034 reforça essa importância. O programa deverá abranger 109 distritos do país, incluindo 20 em Nampula, e procura promover um desenvolvimento mais sustentável da cadeia.
Como é feita a produção de caju?
A produção começa muito antes da colheita. Um pomar produtivo depende da escolha do local, qualidade das mudas, espaçamento adequado, controlo da vegetação concorrente, poda e acompanhamento de pragas e doenças.
Plantar cajueiros e simplesmente esperar pela produção pode resultar em rendimentos abaixo do potencial da cultura. Pomares antigos, árvores excessivamente densas, falta de poda e problemas fitossanitários podem reduzir significativamente a quantidade e a qualidade das castanhas obtidas.
Por isso, a tendência actual é tratar o cajueiro como uma cultura comercial que exige maneio. O produtor precisa observar o desenvolvimento das plantas, conservar o pomar limpo, retirar ramos improdutivos quando necessário e acompanhar especialmente os períodos de floração e formação das castanhas.
O controlo de pragas e doenças também é decisivo. Quando problemas fitossanitários afectam flores e novos rebentos, a consequência aparece directamente na produção final.
Sugestão de leitura
Plantas Medicinais do Norte de Moçambique que Combatem Parasitas nas Galinhas
3 produtos agrícolas que os agricultores já devem começar a procurar para a próxima campanha
Qual a melhor época de pôr galinha para chocar?A assistência técnica torna-se, portanto, uma parte importante da modernização do sector.
A castanha de caju tem mercado em Moçambique?
Sim. A castanha possui mercado interno e externo, mas o valor recebido pelo produtor depende de factores como qualidade, procura, momento da comercialização e condições do mercado internacional.
Na campanha 2025/2026, o preço de referência para compra ao produtor foi estabelecido em 45 meticais por quilograma. O Ministério da Agricultura explicou que esse valor poderia ser reajustado de acordo com o comportamento dos preços internacionais.
É importante compreender que preço de referência não significa necessariamente que todas as transacções realizadas em todas as localidades terão exactamente o mesmo valor. Qualidade da castanha, concorrência entre compradores, custos de transporte e dinâmica local podem influenciar as negociações.
A qualidade também ganha importância quando se olha para a exportação. Para a campanha 2025/26, foram definidos preços de referência de exportação de 1.250 dólares por tonelada para castanha de qualidade de 46 libras e 1.440 dólares para a categoria de 53 libras.
Isso demonstra que produzir mais é importante, mas produzir castanha de melhor qualidade também pode aumentar a competitividade da cadeia.
O processamento pode aumentar o valor do caju moçambicano
Vender castanha bruta é apenas uma das possibilidades económicas do caju. Quando existe processamento dentro do país, parte maior do valor pode permanecer na economia nacional.
A castanha pode passar por diferentes etapas até chegar ao consumidor como amêndoa pronta para consumo. Essas operações exigem instalações, trabalhadores, controlo de qualidade, embalagem, transporte e comercialização.
Consequentemente, uma tonelada de castanha não representa apenas aquilo que o agricultor colheu. Ela pode gerar actividade económica em várias etapas posteriores.
Na campanha 2025/26, o Governo estimava exportações na ordem das 60 mil toneladas de castanha, enquanto também procurava garantir matéria-prima para a indústria nacional.
Encontrar equilíbrio entre exportação, processamento nacional e remuneração justa do produtor será fundamental para o crescimento sustentável do sector.
O caju pode voltar a ser uma das grandes culturas de rendimento?
Os números recentes indicam que existe potencial.
Moçambique já foi uma referência mundial e voltou a aproximar-se dos seus máximos históricos de comercialização. Ao mesmo tempo, o Governo está a implementar políticas para expandir os pomares e aumentar a produtividade.
O Programa Quinquenal do Governo 2025-2029 estabeleceu metas específicas relacionadas com área plantada, número de mudas, produção e comercialização.
Existe ainda o Programa de Desenvolvimento da Cadeia de Valor do Caju 2025-2034, apresentado pelo IAM como uma intervenção de longo prazo que deverá alcançar 109 distritos. Entre as mudanças previstas está maior participação do sector privado em áreas como produção de mudas e prestação de determinados serviços ligados ao maneio dos cajueiros.
Para o agricultor, contudo, o sucesso da cultura continuará a depender daquilo que acontece na machamba. Renovar árvores envelhecidas, utilizar material de plantio adequado, cuidar dos pomares, controlar pragas e doenças e melhorar a qualidade da castanha são factores essenciais.
O futuro do caju em Moçambique
O futuro do caju em Moçambique passa por produzir mais, mas principalmente por produzir melhor e transformar uma parcela maior da produção dentro do país.
A recuperação para cerca de 195,4 mil toneladas comercializadas na campanha 2024/25 mostra que o sector tem capacidade para crescer. Ao mesmo tempo, aproximar-se dos recordes históricos não significa que todos os problemas estejam resolvidos. Produtividade dos pomares, mudanças climáticas, acesso aos serviços, qualidade, comercialização e capacidade de processamento continuam a exigir atenção.
Para milhares de famílias rurais, cada melhoria nessa cadeia pode representar mais rendimento. Para as empresas, significa disponibilidade de matéria-prima e novas oportunidades de processamento e comercialização. Para Moçambique, significa transformar uma cultura profundamente ligada à história agrícola nacional numa fonte cada vez maior de emprego, exportações e desenvolvimento rural.
O cajueiro, portanto, não é apenas uma árvore comum nas machambas moçambicanas. É parte de uma cadeia económica que está novamente a ganhar força e que poderá desempenhar um papel ainda maior na agricultura nacional nos próximos anos.